Na quinta-feira mais uma vez dei por mim a tentar comprar o livro em segunda mão “Just Kids” da Patti Smith mas ainda assim não achei que o valor justificasse numa altura onde existem outras prioridades.
Mas alimentar a alma deve ser também ela uma prioridade.
Na sexta-feira enquanto não me decidi o algoritmo cruzou-me gratuitamente com um vídeo da Patti Smith a cantar o “people have the power” para uma plateia que a brindou numa sincronização vocal que a emocionou. Emocionada também eu partilhei o vídeo em loop com a minha miúda de 4 anos e ainda tentei que ela aprende-se o refrão com direito a tradução. “As pessoas têm o poder”, quando disse isto em português avivaram-se as lutas políticas dos últimos dias e não era com isso que a queria inspirar. Não ainda. Queria sensibiliza-la para descobrir esse poder que vive cá dentro e de como o pode usar a favor do bem.
No sábado soube que o Hugo teria deixado esta estranha forma de vida. E desde então tenho reflectido de várias perspectivas com muitos “ses” à mistura. Uma recordação recorrente veio envolta da ironia da vida, recordei-me de quando literalmente na viagem a caminho da viagem de finalistas do 12ano (1997) saí do meu banco do autocarro, que nem me recordo qual era nem com quem o partilhava, para me sentar no banco de trás, fiquei ao lado do Hugo e perguntei o que estava ele a escutar no seu walkman. Ele passou-me os phones e eu fiquei encantada. Acho que me lembro do seu espanto por eu não reconhecer o que estava a ouvir mas não me melindrou e emprestou-me a cassete por meses, uma cassete piratiada, com uma capa feita de cartolina azul petróleo esbatido com o nome do álbum datilografado a máquina de escrever a preto e vermelho, dizia Horses - 1975 - Patti Smith. Caramba há grandes coincidências não é?
Hoje terça-feira 27/10/2026 eu, não melómana, é com música, com Patti Smith que quero prestar a minha homenagem. Tenho pena de nunca lhe ter contado que muitas foram as vezes que ouvi Patti Smith e me recordei dele, de como aquela cassete teve o poder de multiplicar tantas formas de me alimentar a alma ao longo do tempo.
Que um “people have the power” encontre sempre em nós o seu lugar para prosperar.
O sentimento com que observo este desfecho, questionando de como veio aqui parar, mesmo na incompreensão, mesmo na impossibilidade de aceitar a realidade, que esse sentimento serene. Serene com esse poder de memórias feito com o que de bom me liga ao Hugo Rodrigues e que perpetue o olhar de “just kids” que já tive… e ainda cuido de ter.
Depois de escrever este texto fui a casa do meu pai. Fui à gaveta onde costumava guardar as cassetes e não encontrei mas estranhei que a gaveta estava mais vazia. O meu pai explicou-me onde na garagem podia encontrar mais cassetes guardadas e para meu grande espanto lá estava ela.
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