“(...) A Imagem só pode entrar na corrente da consciência se for ela própria síntese e não elemento. Não há, não pode haver imagens dentro da consciência. Mas a imagem é um certo tipo de consciência. A imagem é um acto e não uma coisa. A imagem é consciência de alguma coisa.” in "A Imaginação" de Jean-Paul Sartre
terça-feira, 5 de novembro de 2024
terça-feira, 22 de outubro de 2024
quinta-feira, 26 de setembro de 2024
quinta-feira, 19 de setembro de 2024
terça-feira, 10 de setembro de 2024
Pode alguém não amar o banal?
Alguém já cuidou que assim fosse,
desde os primeiros cueiros!
A primeira bebedeira infantil.
O cuspir mais alto, o mijar mais longe.
A dejua da sopa morna às 4 da manhã
O cheiro da cafeteira das 9
espumando fervura por 3 vezes
O perfume do peixe fresco
na fritura das 10
o almoço do pai no meio do pão
O jantar depois do meio-dia
a instrução primária até às 3 da tarde
as incompreensíveis reguadas nas mãos
as pancadas na nuca após a súplica
a violência dos puxões de orelhas
após o protesto…
A mãe passando a ferro vigiando cópias
O pai passando multiplicações e divisões
de 12 algarismos antes da sesta
Como pode alguém não amar o que é feio?
Trazer para o poema
os abusados que abusam
os violentados que violentam...
só assim perante o injusto
pode o Incêndio acontecer
Poema de Joyce e Ana Terra "Essa mulher" com Elis Regina 1979)
De manhã cedo essa senhora se conforma
Bota a mesa, tira o pó, lava a roupa, seca os olhos
Ah, como essa santa não se esquece
De pedir pelas mulheres, pelos filhos, pelo pão
Depois sorri meio sem graça
E abraça aquele homem, aquele mundo que a faz assim feliz
De tardezinha essa menina se namora
Se enfeita, se decora, sabe tudo, não faz mal
Ah, como essa coisa é tão bonita
Ser cantora, ser artista, isso tudo é muito bom
E chora tanto de prazer e de agonia
De algum dia, qualquer dia entender de ser feliz
De madrugada essa mulher faz tanto estrago
Tira a roupa, faz a cama, vira a mesa, seca o bar
Ah, como essa louca se esquece
Quanto os homens enlouquece nessa boca, nesse chão
Depois parece que acha graça
E agradece ao destino aquilo tudo que a faz tão infeliz
Essa menina, essa mulher, essa senhora
Em quem esbarro a toda hora no espelho casual
É feita de sombra e tanta luz
De tanta lama e tanta cruz que acha tudo natural
quarta-feira, 4 de setembro de 2024
segunda-feira, 2 de setembro de 2024
Primeiro dia do regresso à creche. O ano passado estava muito nervosa com a mudança de creche, a questionar-me se teria tomado a decisão certa, para ti e para mim. Sofri na dúvida. Ficaste 2 dias a chorar mas quanto te ia buscar estavas bem (do que se entende por bem ao mudar a rotina de uma bebé repentinamente de um contexto de férias para estar fechada numa sala com desconhecidos). Depois nunca mais choraste, até hoje. Apática e a observar mas ficaste nessa distração em que vives a absorver o mundo que te rodeia. Quando te fui buscar já me havia mentalizado que haveria alguma alteração de humor e assim foi, um misto de excitação a camuflar um cansaço, acredito que mental de teres passado um dia a gerir emoções de sucessivos comportamentos adaptativos às circunstâncias que te rodearam. Passeamos, com um ida ao chaqueca (escorrega) passando pela cidade, pela biblioteca e regressando já com sentido no lérilé (leitinho), onde quase sucumbiste. Pensei se devia aproveitar para descansares mas ao mesmo tempo parecia ainda muito cedo. Sucederam-se birras alternadas de excitação, choro e adormeceste sim que pudeste. Também estava cansada a fazer o meu esforço por te compreender e respeitar. Falhei, fiz o melhor que pude. Chorei quando saí da creche, por mim e pelos pais que deixam os filhos pela primeira na creche. Um ano voou, todo o tempo do mundo contigo é pouco.
Amo-te muito Elisa ♥️
Este ano o tema de decoração da creche são os moinhos de papel, que eu adoro. Portanto logo à entrada fiquei entusiasmada com esta particularidade e pensei nos gigantes de D. Quixote. Como se agigantam estes dias, na bravura com que te vejo a seres num momento de cada vez. Seguir rodando ao sabor não vento nesta fragilidade de ser criança.
sábado, 31 de agosto de 2024
quinta-feira, 22 de agosto de 2024
terça-feira, 20 de agosto de 2024
domingo, 18 de agosto de 2024
sábado, 17 de agosto de 2024
quinta-feira, 25 de julho de 2024
Ítaca - Poema de Konstantínos Kaváfis (tradução: Jorge de Sena)
Quando partires de regresso a Ítaca,
deves orar por uma viagem longa,
plena de aventuras e de experiências.
Ciclopes, Lestrogónios, e mais monstros,
um Poseidon irado - não os temas,
jamais encontrarás tais coisas no caminho,
se o teu pensar for puro, e se um sentir sublime
teu corpo toca e o espírito te habita.
Ciclopes, Lestrogónios, e outros monstros,
Poseidon em fúria- nunca encontrarás,
se não é na tua alma que os transportes,
ou ela os não erguer perante ti.
Deves orar por uma viagem longa.
Que sejam muitas as manhãs de Verão,
quando, com que prazer, com que deleite,
entrares em portos jamais antes vistos!
Em colónias fenícias deverás deter-te
para comprar mercadorias raras:
coral e madrepérola, âmbar e marfim,
e perfumes subtis de toda a espécie:
compra desses perfumes o quanto possas.
E vai ver as cidades do Egipto,
para aprenderes com os que sabem muito.
Terás sempre Ítaca no teu espírito,
que lá chegar é o teu destino último.
Mas não te apresses nunca na viagem.
É melhor que ela dure muitos anos,
que sejas velho já ao ancorar na ilha,
rico do que foi teu pelo caminho,
e sem esperar que Ítaca te dê riquezas.
Ítaca deu-te essa viagem esplêndida.
Sem Ítaca, não terias partido.
Mas Ítaca não tem mais nada para dar-te.
Por pobre que a descubras, Ítaca não te traiu.
Sábio como és agora,
senhor de tanta experiência,
terás compreendido o sentido de Ítaca.
sábado, 20 de julho de 2024
sexta-feira, 28 de junho de 2024
Com o nível de birra a aumentar com a proximidade do jantar, ponderei dar-te um geladinho de fruta caseiro antes. Resultou, depois veio a sopa e bracejando como quem diz algo muito importante achaste que podias dispensar metade da sopa
- Elisa ainda não acabou. Se não vou aí à tua barriga e tiro o gelado.
-O gilado já tá!!! (Com ar de que-raio-de-conversa-é-essa!! E com razão)
sábado, 22 de junho de 2024
sexta-feira, 21 de junho de 2024
Poema de Maria Velho da Costa "Revolução e Mulheres"
Elas fizeram greves de braços caídos.
Elas brigaram em casa para ir ao sindicato e à junta.
Elas gritaram à vizinha que era fascista.
Elas souberam dizer salário igual e creches e cantinas.
Elas vieram para a rua de encarnado.
Elas foram pedir para ali uma estrada de alcatrão e canos de água.
Elas gritaram muito.
Elas encheram as ruas de cravos.
Elas disseram à mãe e à sogra que isso era dantes.
Elas trouxeram alento e sopa aos quartéis e à rua.
Elas foram para as portas de armas com os filhos ao colo.
Elas ouviram falar de uma grande mudança que ia entrar pelas casas.
Elas choraram no cais agarradas aos filhos que vinham da guerra.
Elas choraram de verem o pai a guerrear com o filho.
Elas tiveram medo e foram e não foram.
Elas aprenderam a mexer nos livros de contas e nas alfaias das herdades abandonadas.
Elas dobraram em quatro um papel que levava dentro uma cruzinha laboriosa.
Elas sentaram-se a falar à roda de uma mesa a ver como podia ser sem os patrões.
Elas levantaram o braço nas grandes assembleias.
Elas costuraram bandeiras e bordaram a fio amarelo pequenas foices e martelos.
Elas disseram à mãe, segure-me aí os cachopos, senhora, que a gente vai de camioneta a Lisboa dizer-lhes como é.
Elas vieram dos arrebaldes com o fogão à cabeça ocupar uma parte de casa fechada.
Elas estenderam roupa a cantar, com as armas que temos na mão.
Elas diziam tu às pessoas com estudos e aos outros homens.
Elas iam e não sabiam para onde, mas que iam.
Elas acendem o lume.
Elas cortam o pão e aquecem o café esfriado.
São elas que acordam pela manhã as bestas, os homens e as crianças adormecidas.
sexta-feira, 14 de junho de 2024
quarta-feira, 1 de maio de 2024
segunda-feira, 22 de abril de 2024
quinta-feira, 18 de abril de 2024
domingo, 14 de abril de 2024
Hoje foi o dia em que o teu pai foi iluminado e saiu contigo de casa sem me avisar. Nunca eu fiz isso, aviso sempre onde vou. Tenho perguntado se não quer sair contigo, ao que não respondendo avanço eu para saíres de casa. Envio fotos em algumas ocasiões. Dei conhecimento à tua avó paterna, que no seu machismo bafiento validou a atitude do filho tendo por base a suposição que se me estava a pagar na mesma moeda então estava tudo bem... O desespero por abafar a estupidez do seu filho, deixa-a à beira de um ridículo deprimente. Dá pena. O dinheiro compra muita coisa Elisa, mas não compra o carácter de que somos feitos. A escassez de caráter ali abunda, não te deixes comprar.
Primeiro, não pagues na mesma moeda em jeito de vingança, isso é para os pobres de espirito.
Segundo, doeu muito ver-me sozinha sem ti, sem perceber porquê. Não se faz, é atroz, uma monstruosidade à altura de outras que me foram infligidas mas a atingir numa profundidade sem precedente...
terça-feira, 9 de abril de 2024
sábado, 6 de abril de 2024
quarta-feira, 27 de março de 2024
Sem creche tirei o dia de férias para o passar contigo. Os potenciais planos para o nosso dia foram adiados com a chuva que teimava em cair. Ajustei-me à realidade e fomos ao sabor do nosso tempo interno e no intervalo da chuva. Saímos ainda ao final da manhã a cantar "cai chuva no telhado mas que linda que ela é..." Primeira paragem biblioteca municipal, fechada, véspera de feriado e o estado alargou as festividades. Depois aqui há gato para veres luz e cor e ouvir meninos a brincar. Depois até à sala de leitura que já se esperava fechada. E fui então tratar do selo de estacionamento para o carro. Daqui fomos ao Parque infantil do jardim da liberdade. Estava vazio, sem adultos a desvirtuar o espaço e aventurei-te no escorrega pequenino. Rimos do escorrega mas a gargalhada que queria ter gravado foi a que deste inclinada sobre a força do vento que te empurrava. Aquela que abafa os nervos de andar contigo na " intempérie". Como dizia alguém não há mau tempo o que há é roupa apropriada ou não e tu estavas agasalhada. Se o meu sexto sentido funciona para saber quando é para te levar ao médico, pois que agora também confie que estávamos bem. Foi o vento forte que pela primeira vez sentiste, qual força invisível a empurrar-te.
Dali para o escorrega do Wshopping, e umas quantas risadas nas escadas rolantes, as vezes ainda me falta o ar a sincronizar a nossa entrada. Recordo-me da primeira vez que andei nas escadas rolantes do amoreiras em Lisboa. Às tantas sozinha em baixo senti alguém elevar-me no ar para me ajudar na hesitação. Ousei descer mas para subir estava com medo e pensei até que nunca mais via o meu pai.
Dali para casa noutro intervalo da chuva.
Uma grande sesta. Um almoço tardio e nova saída funcional de carro, sem olhar para as horas. Apenas indo. Passamos ainda pelo avô beta para deixar roupa para a secar e charme falante que vais deixando agora por onde passas. Adormecendo cansadas e abraçadas. Amo-te muito🩷
"...chuva vai, chuva vem, chuva miúda não molha ninguém"





























